Atualmente Adido de Defesa na Embaixada dos Camarões em Washington, DC, o Coronel Jean-Claude Mpay faz parte da comunidade do Centro de Estudos Estratégicos de África (CEEA) desde 2015. Ao longo desse período, participou nos programas do CEEA tanto como participante quanto como orador. Partilhou generosamente os seus conhecimentos e perspetivas em seminários temáticos de segurança nos Camarões, no âmbito do programa dos Adidos de Defesa Africanos sobre estratégia de segurança nacional em Washington e, mais recentemente, ministrou uma palestra sobre a cooperação em matéria de segurança entre os Estados Unidos e África no seminário do CEEA sobre desafios contemporâneos de segurança, destinado a responsáveis do governo dos Estados Unidos.
Apresente-se, por favor.
Coronel Jean-Claude Mpay (JCM): Sou o Coronel Jean-Claude Mpay, atualmente Adido de Defesa na Embaixada dos Camarões junto aos Estados Unidos da América. Passei grande parte da minha carreira como oficial responsável pela área da educação no seio das Forças Armadas Camaronesas. Sou titular de um mestrado em Estratégia, Defesa, Segurança, Conflitos e Gestão de Catástrofes pela Universidade de Yaoundé II Soa, de um mestrado em Relações Internacionais e Diplomacia pela Academia Diplomática do Cairo, bem como de um grau de mestrado e de uma licenciatura em Direito Público pela Universidade de Yaoundé.
Ao longo dos anos enquanto oficial de infantaria, adquiri vasta experiência na condução de ações de formação em instituições militares de ensino. Passei nove anos na Escola de Guerra dos Camarões, inicialmente como oficial instrutor, depois como chefe do grupo de ensino geral e, posteriormente, como subcomandante e diretor do ensino. Tive a oportunidade de formar cerca de 500 oficiais provenientes de aproximadamente 25 países de África, bem como da França e dos Estados Unidos. Formei igualmente soldados, sargentos e cadetes, e lecionei cursos básicos, avançados e cursos de estado-maior.
Durante a minha carreira no domínio da defesa e da segurança, participei como Chefe da Célula de Operações (J3) da Força Multinacional Conjunta (FMM), responsável pelo combate ao grupo terrorista Boko Haram, afiliado ao Estado Islâmico, na Bacia do Lago Chade. O Estado Islâmico e os seus afiliados figuram entre os grupos terroristas mais letais do mundo. A operação da FMM envolvia cinco países — Benim, Camarões, Chade, Níger e Nigéria — com o apoio dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França, conhecidos como o P3. Fui responsável pela formação, treino, condução e coordenação das operações, tendo igualmente participado no processo de planeamento das operações “Yancin Tafki” e “Lake Sanity 1”.
O Posto de Comando (PC) da FMM encontra-se em N’Djamena, mas passei a maior parte do meu tempo no PC tático da FMM em Diffa, no Níger. A partir daí, coordenava operações terrestres, aéreas e navais nos Camarões, Chade, Níger e Nigéria. A organização não governamental International Crisis Group avaliou o período que ali passei como o mais bem-sucedido, tendo em conta os resultados alcançados pela FMM entre o final de 2018 e 2020 na proteção das populações civis, no aumento do número de terroristas arrependidos, na redução das perdas entre as forças amigas e na condução de ações cinéticas e não cinéticas contra o Boko Haram.
No que respeita a distinções honoríficas, recebi várias condecorações, nomeadamente a Medalha Francesa da Defesa Nacional em ouro e prata, a Medalha da Força Multinacional Conjunta, a Medalha da Operação Yancin Tafki (FMM), as Medalhas de Cavaleiro e de Oficial da Ordem do Mérito dos Camarões, a Medalha da Força Pública dos Camarões, bem como a Medalha Desportiva Militar Alemã em ouro.
Quais foram as suas interações recentes com o Centro de Estudos Estratégicos de África?
JCM: Em 18 de setembro de 2025, o CEEA convidou-me a intervir no seu seminário “Africa’s Contemporary Security Challenges”, dirigido a responsáveis do Governo dos Estados Unidos com portefólios centrados em países africanos. Convidado a falar sobre parcerias de cooperação em matéria de segurança, apresentei uma comunicação sobre formas de reforçar e consolidar a parceria estratégica entre os Estados Unidos e África, apoiando-me, em particular, em exemplos dos Camarões. Abordei os interesses dos Estados Unidos em África, analisei o estado atual e as capacidades da cooperação em matéria de segurança entre os Estados Unidos e os Camarões, sublinhei a importância de os Estados Unidos adotarem uma abordagem regional e sub-regional, em vez de uma abordagem centrada num único país, e partilhei reflexões sobre o impacto recente dos cortes no financiamento norte-americano num contexto de concorrência geopolítica.
De que forma a rede de antigos alunos do CEEA foi útil na sua carreira?
JCM: Permita-me dar um exemplo ao nível operacional. Quando estava em funções no seio da FMM, recebi um pedido de um antigo aluno do CEEA oriundo da República Democrática do Congo. O seu país estava a implementar, juntamente com os países da Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos (CIRGL) e da Comunidade da África Oriental (CAE), operações destinadas a combater grupos armados e tráficos ilícitos, inspirando-se no modelo da FMM e nos seus resultados na Bacia do Lago Chade. Na sequência desse pedido, partilhei o nosso Conceito de Operações, o que contribuiu para orientar o seu trabalho com grande sucesso.
Ao nível tático, a rede de antigos alunos revelou-se igualmente útil. Em determinado momento, utilizei esta rede para informar colegas do Níger e do Chade sobre a forma como pastores fulanis transportavam armas dissimuladas e amarradas sob o ventre de bois que se deslocavam no meio de rebanhos. Alguns dias depois, numerosas armas foram apreendidas pelas forças armadas dos respetivos países.
Havia ainda um modo de ação utilizado por terroristas que se posicionavam no final de comboios amigos com veículos suicidas, de modo a facilitar o acesso às bases militares e fazer-se explodir no interior, causando pesadas perdas às forças amigas. Para contrariar esta ameaça, passou-se a contabilizar previamente o número de veículos dos comboios e a comunicar essa informação às forças amigas, de forma a impedir a infiltração de veículos suicidas na retaguarda dos comboios. Esta medida permitiu evitar perdas humanas.
Estabeleceu contactos, através dos programas do CEEA, que não teria estabelecido de outra forma?
JCM: Sim, sem dúvida. Tive o prazer de conhecer o Vice-Ministro da Defesa da Libéria, antigos e atuais comandantes de forças de manutenção da paz das Nações Unidas e da União Africana, bem como Chefes e antigos Chefes de Estado-Maior das Forças Armadas do Níger, da Guiné e do Gabão, além de dirigentes de instituições de ensino militar profissional.
Mantém contacto com antigos alunos conhecidos em eventos do CEEA?
JCM: Encontro-me sistematicamente com os participantes camaroneses que se deslocam a Washington, DC, para o seminário anual do CEEA destinado a futuros líderes do setor da segurança. Mantenho igualmente contacto regular com outros adidos de defesa africanos em Washington afiliados ao CEEA. Convidei ainda alguns antigos alunos a intervirem como pessoas-recurso na Escola Internacional de Guerra dos Camarões.
Qual é a sua ligação à missão do CEEA de reforçar a segurança africana?
JCM: Enquanto antigo oficial instrutor e ponto focal da Comunidade Económica dos Estados da África Central (CEEAC) na Escola de Guerra dos Camarões, continuamos a utilizar grupos de WhatsApp para partilhar boas práticas e trocar ideias com vista ao reforço da segurança em África. Representei a nossa instituição junto da African Peace Support Training Association (APSTA), sediada em Yaoundé. Participei em reuniões que reuniram antigos e atuais comandantes de forças de manutenção da paz, bem como diretores de instituições de formação em manutenção da paz em África e noutras regiões do mundo. Lecionei na Escola Internacional das Forças de Segurança dos Camarões (EIFORCES), no National Defence College (NDC) da Nigéria e no Curso de Estudos Superiores de Defesa (CESD) da Costa do Marfim.
O CEEA trabalha para reforçar a segurança africana através do aprofundamento da compreensão dos desafios, da disponibilização de uma plataforma de diálogo de confiança, da construção de parcerias duradouras e da promoção de soluções estratégicas. Esta missão está plenamente alinhada com a da Escola de Guerra dos Camarões, que visa assegurar formação, educação e investigação em benefício de militares, polícias e civis envolvidos em operações de apoio à paz aos níveis estratégico, operacional e tático, de modo a melhorar a eficácia das respostas a crises complexas através de operações multidimensionais.
Gostaria de partilhar uma mensagem ou reflexão dirigida ao CEEA?
JCM: Agradeço ao Centro pela sua parceria contínua com o meu país e saúdo o seu empenho na formação de profissionais africanos e norte-americanos da defesa e da segurança. Expresso o meu sincero reconhecimento pelos resultados excecionais alcançados pelo CEEA na identificação dos desafios de segurança e na apresentação de soluções, bem como pelo seu compromisso em manter elevados padrões de formação através do seu profissionalismo. Estes resultados são, sem dúvida, difíceis de quantificar, mas são reais.
Como vê o reforço da parceria entre os Estados Unidos e os Camarões?
JCM: Em África, os Camarões afirmam-se como um parceiro de importância estratégica maior — frequentemente subestimado — para a concretização dos objetivos norte-americanos em matéria de segurança, estabilidade e desenvolvimento. Situado no cruzamento da África Ocidental e da África Central, o país constitui um ponto de ancoragem essencial cuja estabilidade se projeta sobre regiões tão críticas como a Bacia do Lago Chade e o Golfo da Guiné. A sua posição geográfica central, associada à existência do porto de Douala, de grande capacidade, e de um aeroporto internacional, levou à instalação no país da sede da Base Logística da Força Africana em Estado de Alerta (FAA) da União Africana.
O papel dos Camarões é multifacetado. Atua como um baluarte contra a instabilidade regional e o terrorismo, enfrentando ameaças persistentes e desafios de segurança complexos, como o Boko Haram na região do Extremo-Norte e a crise anglófona nas regiões do Noroeste e do Sudoeste, que, embora interna, tem implicações regionais em termos de fluxos de refugiados e estabilidade fronteiriça. Compreender estas dinâmicas é fundamental para avaliar o valor de uma parceria reforçada entre os Estados Unidos e os Camarões.
Adaptar a parceria de segurança entre os Estados Unidos e os Camarões exige uma abordagem flexível e sensível ao contexto, tendo em conta as variações de capacidades, a vontade política e as estruturas institucionais dos parceiros. Uma cooperação eficaz deve ser concebida de forma a alinhar os objetivos estratégicos norte-americanos com as prioridades locais. Uma variável essencial reside na capacidade operacional das forças armadas parceiras, que requer meios avançados, como capacidades de inteligência antiterrorista ou equipamentos especializados.
A parceria de segurança entre os Estados Unidos e os Camarões insere-se numa longa história de colaboração, sendo o Governo dos Estados Unidos um parceiro estratégico central no reforço das capacidades de segurança camaronesas. Esta cooperação traduziu-se em várias iniciativas-chave destinadas a contrariar ameaças regionais e a promover a estabilidade.
Historicamente, os programas norte-americanos deram contributos decisivos para a capacidade dos Camarões conterem ameaças insurgentes, em particular na região do Extremo-Norte. Um exemplo emblemático é o apoio prestado ao Batalhão de Intervenção Rápida (BIR), uma unidade de elite que beneficiou de formação e equipamento dos Estados Unidos para combater eficazmente os terroristas do Boko Haram e a pirataria marítima. Esta assistência permitiu aos Camarões desempenhar um papel crucial no seio da Força Multinacional Conjunta, demonstrando o seu empenho e eficácia nas operações regionais de combate ao terrorismo.
A segurança marítima constitui outro pilar fundamental desta cooperação. O Golfo da Guiné é uma das zonas marítimas mais perigosas do mundo devido à pirataria e à pesca ilegal, ameaçando as rotas comerciais internacionais e a segurança energética. A cooperação norte-americana reforçou as capacidades navais dos Camarões, nomeadamente no quadro da Arquitetura de Yaoundé para a Segurança Marítima, um dispositivo regional essencial de coordenação dos esforços. A participação dos Camarões em exercícios conjuntos como Obangame Express (liderado pela Sexta Frota dos EUA) e Flintlock (sob a égide do AFRICOM) melhorou igualmente a prontidão operacional e a interoperabilidade entre as forças armadas dos países participantes. Neste contexto, a Marinha dos Camarões participará também no 250.º aniversário da Marinha dos Estados Unidos (FLEETEX250), em Nova Iorque, em junho de 2026.
A educação e a formação militares constituem componentes essenciais da parceria. O programa International Military Education and Training (IMET) financia a formação de militares camaroneses, promovendo o desenvolvimento de relações profissionais duradouras entre oficiais norte-americanos e camaroneses. Estes intercâmbios são fundamentais para reforçar a compreensão mútua e promover doutrinas militares em conformidade com normas internacionais. Apesar das limitações de recursos, as Forças Armadas dos Camarões demonstraram um profissionalismo e uma eficácia notáveis em diversas operações, fazendo do país um parceiro fiável e competente no continente. A este respeito, a Escola Superior Internacional de Guerra dos Camarões acolheu anteriormente um oficial superior norte-americano por ano durante cerca de quatro anos; no entanto, os Estados Unidos deixaram recentemente de enviar estagiários. Subsiste, ainda assim, uma oportunidade valiosa de ligação entre oficiais africanos e norte-americanos, sendo que muitos antigos estagiários continuam a ocupar cargos de responsabilidade político-militar em África.
O apoio em materiais e equipamentos constitui outro eixo importante. A assistência norte-americana — embora por vezes limitada — forneceu capacidades avançadas em matéria de vigilância, comunicações e equipamentos de proteção, superando frequentemente as contribuições de outros parceiros. O acompanhamento distingue os programas norte-americanos: ao contrário de alguns atores externos que efetuam entregas pontuais, as iniciativas dos Estados Unidos incluem frequentemente atividades de mentoria, acompanhamento e aconselhamento contínuo, reforçando a sustentabilidade das capacidades. Este envolvimento de longo prazo promove a confiança e reforça a capacidade dos Camarões para enfrentar ameaças em evolução, em particular as provenientes do Boko Haram e de redes extremistas transfronteiriças. Os Estados Unidos deveriam aumentar o número de vagas de formação oferecidas aos Camarões, que permanecem igualmente abertos a parcerias alargadas com outros países que disponibilizem mais oportunidades de formação, como a Rússia, a França, a China, a Índia, o Brasil e Marrocos.
Importa, contudo, sublinhar que esta cooperação não está isenta de desafios. As preocupações relativas aos direitos humanos e à governação levaram, por vezes, o Congresso dos Estados Unidos a impor restrições à ajuda militar, limitando o alcance e a eficácia de determinados programas. Embora motivadas por preocupações legítimas, estas restrições criaram igualmente lacunas na cooperação que poderão, a longo prazo, comprometer os objetivos de segurança e de proteção dos direitos humanos. A complexidade destes desafios exige uma abordagem matizada, capaz de equilibrar o apoio aos imperativos de segurança com a promoção dos valores democráticos e dos direitos fundamentais.