Há mais de quinze anos, o Centro Africano de Luta contra o Terrorismo da União Africana (AUCTC) e o Centro de Estudos Estratégicos de África (CEEA) trabalham em conjunto para reforçar a segurança em todo o continente. Esta colaboração de longa data tem-se concentrado no combate ao terrorismo, no enfrentamento do crime organizado transnacional, na formação de profissionais africanos do setor da segurança e na criação de uma rede duradoura de profissionais capacitados para lidar com estes desafios. O Sr. Idriss Mounir Lallali, figura de destaque no domínio do combate ao terrorismo no continente africano, é um antigo aluno distinto do CEEA. Desde 2017, exerce funções como Diretor-Adjunto do Centro Africano de Luta contra o Terrorismo da União Africana, tendo assumido a liderança da instituição como Diretor Interino desde abril de 2019. O Sr. Lallali é também Chefe da Unidade de Alerta e Prevenção da União Africana. A sua liderança tem sido fundamental para orientar uma equipa dedicada de especialistas na avaliação das capacidades de luta contra o terrorismo dos Estados-Membros da União Africana (UA) e no apoio ao desenvolvimento de estratégias nacionais e regionais destinadas a combater o terrorismo. Nesta entrevista, exploramos as perspetivas do Sr. Lallali sobre o estado atual do terrorismo em África, os desafios enfrentados pelos Estados-Membros da UA e as iniciativas estratégicas em curso para promover um continente mais seguro e resiliente.
Pode falar-nos sobre o recentemente aprovado Plano de Ação Estratégico Global Quinquenal da União Africana para o Combate ao Terrorismo (2026–2030)?
Sr. Idriss Mounir Lallali (IML): O Plano de Ação Estratégico Global Quinquenal da União Africana para o Combate ao Terrorismo (2026–2030) representa um ponto de viragem decisivo na resposta do continente ao terrorismo. É a primeira vez que África consolida, num único quadro coerente, duas décadas de aprendizagem institucional, lições operacionais e análises evolutivas da ameaça, traduzindo-as num roteiro continental de implementação.
O Plano foi adotado ao nível de especialistas durante a consulta técnica organizada pelo Centro Africano de Luta contra o Terrorismo (AUCTC), realizada em Argel entre 15 e 17 de dezembro de 2025, num contexto marcado pela confirmação de África como o epicentro global do terrorismo. Não se trata, portanto, de um documento teórico ou aspiracional, mas de uma resposta concreta a um desafio de segurança existencial que afeta simultaneamente várias regiões africanas.
… a primeira atividade realizada pelo AUCTC — então ACSRT — com um parceiro internacional foi com o CEEA em 2005. Mais de vinte anos depois, esta parceria não só perdurou como se aprofundou e adaptou à evolução das ameaças.
Três características distinguem este Plano das abordagens anteriores.
Em primeiro lugar, introduz disciplina na implementação. O Plano traduz compromissos políticos em responsabilidades operacionais claras, definindo os papéis da UA, das Comunidades Económicas Regionais e Mecanismos Regionais (CER/MR) e dos Estados-Membros. Está estruturado em torno de resultados mensuráveis: capacidades institucionais estabelecidas, mecanismos de coordenação ativados, sistemas de alerta precoce ligados à ação rápida, instrumentos jurídicos operacionalizados e interoperabilidade reforçada. Responde diretamente ao fosso persistente entre as decisões da UA e a sua execução, identificado em avaliações continentais recentes.
Em segundo lugar, o Plano assenta numa sincronização multinível. Encarna o combate ao terrorismo como um desafio sistémico que deve ser abordado simultaneamente aos níveis local, nacional, regional e continental. Tal reflete a natureza atual da ameaça, em que as organizações terroristas operam como sistemas transnacionais de mobilidade e logística, em vez de insurgências territorialmente fixas. O planeamento conjunto, a cooperação transfronteiriça, a fusão de informações e a desconflituação operacional constituem, assim, pilares centrais.
Em terceiro lugar, o Plano reforça a governação, a supervisão política e a responsabilização. Baseia-se nas decisões da Assembleia da UA e do Conselho de Paz e Segurança que reconhecem o terrorismo como uma ameaça estratégica à estabilidade, soberania e desenvolvimento do continente. Foi concebido para ser supervisionado através de mecanismos reforçados do CPS, incluindo o Subcomité de Luta contra o Terrorismo, assegurando um ancoramento político sustentado.
Em termos práticos, o Plano fornece a África uma bússola continental única. Destina-se não só a orientar a ação africana, mas também a servir de quadro de referência para todos os parceiros internacionais envolvidos no combate ao terrorismo e na prevenção do extremismo violento em África.
Como o Centro Africano de Luta contra o Terrorismo define a importância da colaboração local e regional no enfrentamento das atuais ameaças terroristas em África?
IML: O AUCTC define a colaboração local e regional como o centro de gravidade de um combate eficaz ao terrorismo em África, porque a ameaça atual é simultaneamente local no seu impacto e regional — frequentemente continental — na sua conceção e execução.
… as pressões relacionadas com recursos e sustentabilidade estão a intensificar-se. Mesmo quando existe apoio internacional, resultados sustentáveis no combate ao terrorismo dependem de eficiências regionais, capacidades partilhadas e financiamento previsível. A fragmentação aumenta os custos e reduz o impacto.
Ao nível local, os atores comunitários, as autoridades locais, os serviços de segurança de primeira linha, os líderes tradicionais, as redes de mulheres e jovens e a sociedade civil detêm os indicadores mais precoces e credíveis de radicalização, recrutamento, coerção e preparação logística. Os sinais de alerta precoce — mudanças nos padrões de mobilidade, narrativas de recrutamento, tributação informal ou mecanismos de resolução de conflitos — são detetados, em primeiro lugar, a nível local. Sem estes contributos, os sistemas nacionais e regionais operam às cegas.
Ao nível regional, as CER e os MR — reconhecidos como pilares essenciais da APSA — fornecem o tecido conector indispensável. Permitem a coordenação transfronteiriça, avaliações conjuntas da ameaça, fusão de informações, cooperação na gestão de fronteiras e sincronização operacional. As redes terroristas exploram fronteiras, corredores e lacunas jurisdicionais; apenas mecanismos regionais conseguem fechar sistematicamente essas brechas.
Ao nível continental, a UA — através do AUCTC — assegura coerência, definição de normas, legitimidade política e alinhamento com os quadros jurídicos e políticos continentais, evitando duplicações, fragmentação e dependência.
Em consonância com esta lógica, o AUCTC tem investido fortemente na coerência vertical, garantindo que as estratégias regionais de combate ao terrorismo estejam alinhadas com as estratégias nacionais e que as experiências nacionais alimentem o planeamento regional e continental. Foi precisamente essa a lógica subjacente ao recente processo de validação do Plano de Ação Continental Quinquenal com as CER/MR.
No âmbito da arquitetura continental de combate ao terrorismo do AUCTC, os Pontos Focais Regionais desempenham um papel operacional crucial. Através de reuniões periódicas de coordenação entre o AUCTC e as CER/MR, programas conjuntos de reforço de capacidades e mecanismos estruturados de partilha de informação, assegura-se continuidade e reforço mútuo.
O Centro tem igualmente apoiado ativamente o estabelecimento e o fortalecimento de arquiteturas regionais de combate ao terrorismo, incluindo Centros Regionais de Luta contra o Terrorismo, Unidades de Fusão e Ligação no Sahel, na África Oriental e na África Austral, bem como quadros de cooperação como o Processo de Nouakchott, o Processo de Djibouti e arranjos multinacionais como a Força-Tarefa Conjunta Multinacional (MNJTF).
Operacionalmente, a colaboração é o que permite a África detetar ameaças mais cedo, prevenir efeitos de transbordamento e deslocamento e negar às organizações terroristas os corredores e vazios de governação que exploram deliberadamente.
Que tendências evolutivas do terrorismo em todo o continente tornam mais urgente do que nunca uma coordenação reforçada entre atores locais, nacionais e regionais?
IML: A urgência da coordenação resulta da evolução estrutural do terrorismo em África, tal como documentado pelo Sistema Continental de Alerta Precoce e Perspetiva de Segurança do AUCTC.
Em primeiro lugar, a expansão geográfica e a interligação dos teatros de operação aceleraram-se. A violência terrorista ultrapassou os principais focos do Sahel e estendeu-se à África Ocidental costeira, à Bacia do Lago Chade, à África Central e ao Corno de África. A confirmação do primeiro ataque do JNIM na Nigéria em 2025 e a crescente infiltração no Benim, Togo, Gana e Costa do Marfim demonstram que a ameaça já não está apenas a aproximar-se de novas regiões — encontra-se já a testar e a enraizar-se nelas.
Em segundo lugar, o nexo entre criminalidade e terrorismo tornou-se estrutural. Os grupos extremistas estão hoje profundamente inseridos em economias ilícitas, incluindo a mineração artesanal de ouro, o tráfico de combustível, os raptos para resgate, as rotas de narcóticos, o tráfico de madeira e de fauna selvagem e o contrabando marítimo. Estas economias são, por natureza, transnacionais e não podem ser desmanteladas através de respostas nacionais isoladas.
Em terceiro lugar, assistimos à hibridização e fragmentação dos atores armados. Os grupos operam através de alianças fluidas, cisões e modelos de franquia, combinando ideologia com dinâmicas locais de conflito. Tal complica a atribuição, o direcionamento, as negociações e os processos de desvinculação, tornando indispensável uma consciência situacional partilhada.
Em quarto lugar, a aceleração tecnológica transformou o campo de batalha. Os grupos terroristas recorrem cada vez mais a drones, comunicações encriptadas, propaganda assistida por inteligência artificial e instrumentos digitais de financiamento, comprimindo os tempos de decisão e reduzindo as janelas de alerta precoce.
O parâmetro de sucesso não é o número de atividades realizadas, mas se um Estado-Membro ou região pode manter a capacidade de forma independente: formadores treinados, procedimentos operacionais padrão adotados, órgãos de coordenação em funcionamento, troca de informações de rotina e alocação de recursos internos.
Os dados são inequívocos: África representa atualmente cerca de 70 a 75% das mortes globais relacionadas com o terrorismo, com milhares de ataques registados anualmente. A resposta deve, por isso, corresponder à escala, velocidade e adaptabilidade da ameaça.
Pode partilhar exemplos de iniciativas regionais ou transfronteiriças apoiadas pelo AUCTC que demonstrem o valor da colaboração?
IML: O que se revela consistentemente eficaz em África são os mecanismos que reduzem as descontinuidades entre os atores.
A Força-Tarefa Conjunta Multinacional (MNJTF) na Bacia do Lago Chade continua a ser um exemplo convincente de cooperação multinacional contra uma ameaça transfronteiriça. O seu valor reside não apenas nas operações conjuntas, mas também na coordenação de informações, na partilha de consciência situacional e no apoio político sustentado.
A criação do Centro Regional de Luta contra o Terrorismo da SADC, bem como das Unidades de Fusão e Ligação no Sahel e na África Oriental, representa outro avanço significativo. Estes mecanismos reforçam a análise conjunta, a troca de informação em tempo real e a coordenação das respostas.
Quadros como o Processo de Nouakchott e o Processo de Djibouti demonstram o valor da cooperação regional estruturada quando utilizados como plataformas de coordenação operacional e não apenas como fóruns consultivos. Facilitam avaliações comuns da ameaça, a construção de confiança e a interoperabilidade.
O papel do AUCTC nestas iniciativas consiste em garantir coerência: harmonizar normas, convocar partes interessadas, alinhar os esforços regionais com as políticas continentais e assegurar que os mecanismos regionais sejam reforçados — e não isolados — no seio da arquitetura da União Africana.
Que mecanismos existem — ou deveriam ser reforçados — para garantir que as experiências e perspetivas dos atores locais informem as políticas regionais de combate ao terrorismo?
IML: Existem vários mecanismos, mas estes requerem uma institucionalização mais forte.
Os canais estruturados de consulta devem incluir sistematicamente autoridades locais, líderes comunitários, redes de mulheres e jovens e serviços de primeira linha nas avaliações de necessidades, nos programas de prevenção e nos processos de lições aprendidas.
Os sistemas descentralizados de alerta precoce devem ser reforçados. O alerta precoce não pode permanecer centrado nas capitais; deve ser alimentado a partir do terreno, protegido e ligado a capacidades de resposta rápida.
Os circuitos de retroalimentação através dos mecanismos nacionais de coordenação e das CER/MR devem traduzir os contributos locais em ciclos de planeamento regional.
O AUCTC tem promovido de forma consistente abordagens de governo-integrado e sociedade-integrada, enfatizando contributos ascendentes nos Planos de Ação Nacionais e Regionais de Prevenção do Extremismo Violento. A apropriação local não é opcional; sem ela, o impacto é de curta duração e a cooperação regional enfraquece.
Por fim, o alerta precoce deve ser acompanhado de ação precoce. Informação sem capacidade de resposta mina a confiança e a credibilidade.
Como podem ser melhor abordadas questões como a partilha de informação, as lacunas de capacidade e a confiança entre os atores?
IML: A partilha de informação, as lacunas de capacidade e a confiança não são três desafios distintos; formam um sistema interdependente. Uma fragilidade num destes domínios compromete inevitavelmente os restantes. A sua abordagem exige, portanto, uma estratégia coerente e sequenciada, simultaneamente operacional, política e institucional.
No seu núcleo, a partilha de informação não é um desafio técnico, mas estratégico e político. Os atores partilham informação quando existem três condições: uma compreensão comum da ameaça, um sentido partilhado de urgência e a convicção de que a cooperação gera valor acrescentado.
Do ponto de vista operacional, o progresso exige acordo sobre conjuntos mínimos de dados partilháveis — padrões de incidentes, modos operatórios, corredores de mobilidade, indicadores de financiamento e tecnologias emergentes — regidos por regras claras de classificação e proteção de dados. Requer também a institucionalização de rotinas de fusão, e não apenas de centros de fusão. Trocas analíticas regulares criam hábitos de cooperação e normalizam a partilha. É igualmente essencial uma lógica clara de retorno de valor: os contribuidores devem receber produtos analíticos oportunos, alertas e informações acionáveis.
As lacunas de capacidade são frequentemente vistas como falta de competências ou de equipamentos. Na realidade, a lacuna mais crítica é muitas vezes a interoperabilidade — a capacidade das capacidades existentes funcionarem em conjunto entre instituições e além-fronteiras. Antes de acrescentar novas capacidades, o AUCTC defende sistematicamente o mapeamento das capacidades existentes, a identificação de vantagens comparativas e a definição de uma divisão de trabalho pragmática.
Um reforço eficaz das capacidades implica passar de formações isoladas para procedimentos operacionais partilhados, metodologias analíticas conjuntas e planeamento operacional coordenado, priorizando facilitadores como comunicações seguras, capacidade de análise de informações, monitorização de fronteiras e mobilidade e ligações à inteligência financeira. A introdução de mecanismos de referência e acreditação para estruturas nacionais de coordenação é igualmente essencial para garantir que o reforço de capacidades seja mensurável, cumulativo e sustentável.
A confiança constrói-se ao longo do tempo através de interação consistente, previsibilidade e equidade. Na cooperação antiterrorista, a confiança cresce quando os atores veem que a informação é protegida e utilizada de forma responsável, que os mecanismos de coordenação funcionam de modo fiável e transparente e que os encargos e riscos são partilhados de forma justa. A desconflituação operacional e o desenvolvimento de métricas comuns de sucesso são particularmente importantes.
Como o AUCTC trabalha com parceiros internacionais, como o CEEA, garantindo uma partilha eficaz de responsabilidades e soluções de combate ao terrorismo com apropriação local?
IML: O modelo de parceria do Centro Africano de Luta contra o Terrorismo assenta num princípio claro: o apoio externo deve amplificar as prioridades africanas, e não substituí-las. Este princípio é operacional. Sem liderança africana, as intervenções de combate ao terrorismo não são sustentáveis nem eficazes.
O papel da AUCTC é garantir que esses pontos fortes sejam incorporados nas estruturas continentais e regionais, complementando (em vez de competir com) as iniciativas da UA e das CER/MR, e fortalecendo as instituições nacionais e os mecanismos de coordenação. Essa abordagem garante uma verdadeira partilha de responsabilidades: as instituições africanas fornecem orientação estratégica, legitimidade política e base contextual, enquanto os parceiros contribuem com conhecimentos especializados e recursos.
Parcerias eficazes baseiam-se em vantagens comparativas, e não em duplicação. Parceiros como o CEEA trazem competências reconhecidas em educação estratégica, intercâmbio analítico, poder de convocação e reforço de capacidades militares e civis. O papel da AUCTC é garantir que esses pontos fortes sejam incorporados nas estruturas continentais e regionais, complementando (em vez de competir com) as iniciativas da UA e das CER/MR, e fortalecendo as instituições nacionais e os mecanismos de coordenação. Essa abordagem garante uma verdadeira partilha de responsabilidades: as instituições africanas fornecem orientação estratégica, legitimidade política e base contextual, enquanto os parceiros contribuem com conhecimentos especializados e recursos.
Para maximizar o impacto, o AUCTC promove planeamento conjunto e transparência, incluindo calendários partilhados, currículos coordenados, indicadores comuns de resultados e fóruns regulares de coordenação. O parâmetro de sucesso não é o número de atividades realizadas, mas se um Estado-Membro ou região pode manter a capacidade de forma independente: formadores treinados, procedimentos operacionais padrão adotados, órgãos de coordenação em funcionamento, troca de informações de rotina e alocação de recursos internos.
A parceria entre o AUCTC e o CEEA é exemplar precisamente porque reflete estes princípios. É baseada na confiança mútua, no respeito e numa compreensão clara dos mandatos e do valor acrescentado de cada instituição. É também uma parceria de longa duração: a primeira atividade realizada pelo AUCTC — então ACSRT — com um parceiro internacional foi com o CEEA em 2005. Mais de vinte anos depois, esta parceria não só perdurou como se aprofundou e adaptou à evolução das ameaças. Essa continuidade é importante. Parcerias de longo prazo permitem a memória institucional, o desenvolvimento progressivo de capacidades e um diálogo honesto sobre o que funciona e o que não funciona.
Em última análise, o AUCTC defende uma transição da assistência para a coconstrução: avaliações conjuntas, conceção conjunta, implementação conjunta e avaliação conjunta, sob liderança africana e alinhadas com os quadros continentais. Num contexto em que o terrorismo é adaptativo, transnacional e profundamente enraizado em vulnerabilidades estruturais, apenas parcerias que respeitem a apropriação, reforcem as instituições e partilhem responsabilidades produzirão resultados duradouros.